sexta-feira, 6 de julho de 2012

"Let It Be."

     Numa terça-feira de céu nublado Marina tem seu coração despedaçado, e a decepção toma conta da imensa sala de estar. Filha única, ela nunca havia passado por uma situação assim, nunca havia sido contrariada, e no fundo sabia que todo o mimo com que fora criada cedo ou tarde a colocaria em uma situação do tipo. Deitada em um sofá confortável e envolvida por almofadas, ela tenta entender o que fez ele ir embora, o que deu errado em seu conto de fadas. Ele disse "estou apaixonado por outra pessoa", e com cinco palavras quebrou toda uma idéia de perfeição formada na cabeça de Marina, fazendo com que ela soubesse naquele instante que este era um caminho sem volta.
     Depois de horas olhando para o nada, ela foi ao banheiro e lavou o rosto para apagar as lágrimas que derramou naquela tarde, embora o inchaço de seu rosto a denunciasse instantaneamente. Ficar em casa não ajudava em nada, então Marina decidiu sair para dar uma volta, hábito que perdeu durante os dois anos e meio em que esteve atrelada àquele garoto. Bem casual, de short e camiseta, ela desce a rua e vai caminhando para a praça, esperando encontrar alguém para lhe distrair de sua 'tragédia pessoal'. Virando a esquina, ela encontra Thiago, seu antigo colega de escola, com quem ela não conversava já havia algum tempo. Ao contrário do que acontece geralmente quando dois conhecidos se esbarram por aí, o "oi, tudo bem" se estendeu e ambos pararam para conversar, sem perceberem o quanto precisavam daquilo. Poucos minutos bastaram para que ela se abrisse, assim como fazem grande parte das pessoas fragilizadas. Durante quarenta minutos o rapaz escutou sobre como ela foi deixada pelo namorado, sobre como ela estava sofrendo, e por alguns instantes ele não reconheceu nela a garota que alguns rapazes descreviam como arrogante e prepotente. Ele via ali alguém frágil e exposta, precisando desabafar. Marina não sentia necessidade de tentar se mostrar superior, como sempre tentava com os demais, e naquela situação de cumplicidade ela reparou que algo nele estava diferente de antigamente. Thiago carregava um semblante triste, pesado, com um olhar desacreditado da vida, e ela instantaneamente percebeu que tinha de saber o motivo. "Você tá com um ar triste.. o que aconteceu?" Somente essa frase bastou para derrubar os muros com os quais ele se defendeu do mundo naqueles dias, muralhas que ele ergueu para tentar evitar que as pessoas vissem o quão frágil ele se encontrava diante daquela situação. Medindo as palavras, para evitar que o sentimento de pena tomasse conta de Marina, ele a explicou que seu pai falecera na semana anterior, vítima de um câncer no pâncreas, e que ele agora era o responsável por cuidar do irmão mais novo, acometido de paralisia infantil. Sua mãe foi embora muitos anos atrás, e ele sabia que ela não era uma pessoa com a qual se deva contar. Naquela tarde, Thiago tinha acabado de retornar do centro da cidade, após espalhar currículos por todas as lojas que encontrou, em busca de um meio de sustentar sua casa. "Já dizia o Paul, Let It Be..", dizia o rapaz algumas vezes durante a conversa, como quem repete muito algo para que ele próprio possa acreditar naquilo. Ele se via diante da maior tragédia que já havia lhe acontecido, procurando meios para se reerguer e lutar por si e por sua família. Apesar de ainda estar em choque, o rapaz carregava consigo uma vontade de seguir em frente e de dar a volta por cima tanto admirável quanto espantosa.
     Diante dele, uma estarrecida Marina se encontrava perdida em constatações, e agora ela percebia o quão egoísta e exagerada ela era. Por um desamor ela se julgou diante de uma perda irreparável, enquanto que aquele rapaz havia perdido tudo, e mesmo assim escutou-a antes de falar sobre seus problemas. Antes de desabafar, ele ouviu-a e em nenhum momento fez pouco caso, nem tentou comparar seu sofrimento com o dela. Sem fazer nada além do que exprimir suas emoções, Thiago ensinou para Marina uma lição gigantesca, a perceber as batalhas que cada um trava todos os dias em suas vidas, e em como as pessoas tem que ser gentis por conta disso, ser solidárias. Ela percebeu o quão só aquele rapaz se encontrava naquele momento, e durante algumas horas a fio, ela o escutou, aconselhou, o fez se sentir melhor. Ele a ensinou a ser uma pessoa melhor, ela queria ensiná-lo a não ser só, queria estar ali, e dar apoio.
     A noite cai, e Marina precisa ir para casa, pois o vento frio do inverno já se fazia presente, estava tarde. Um abraço de cumplicidade se segue, e ela sussura palávras sábias em seu ouvido, antes de ir embora: "Deixe estar.."



this is it.

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não sabe de nada, mas acha sobre muita coisa. pensa sobre tudo, o tempo todo. repara em tudo, o tempo todo. acima de qualquer coisa, é um otimista incorrigível. não se apega a estereótipos, e acredita ser essa uma de suas maiores qualidades. prefere um sorriso bonito a um corpo escultural, e um olhar sincero em detrimento de qualquer noitada homérica. não pretende ser e nem inveja o 'estilo charlie sheen' de vida, em absoluto. quer agradá-lo? cite Los Hermanos, The Killers ou Charlie Brown Jr. quer desafiá-lo? jogue a carta +4 no UNO e aguente o revide. hahaha. a estrada vai além do que se vê. nunca se esqueça. :)

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